4/17/2011

(Ezequiel 8:1 - 11:25

Este trecho é mais um relato altamente simbólico e impressionante. Ezequiel descreve a sua
viagem fantástica em visões ao templo em Jerusalém. Naquela cidade importantíssima para
o povo judeu, o profeta viu uma explicação dramática do declínio de Jerusalém e dos motivos
pelo castigo divino que vinha sobre ela. A arrogância dos habitantes e líderes de Jerusalém enfrenta
a realidade da vingança divina. Mas há um lado positivo nestas visões. Deus assegura ao profeta
que ainda recolheria seu povo e voltaria a ter comunhão com Israel.
I. Ezequiel Testemunha Diversas Abominações no Templo (8:1-18)
A. O contexto destas visões (8:1-4)
1. Esta visão foi recebida no 6º ano, no 6º mês, no 5º dia (8:1).
a. Entendendo a data como referência ao cativeiro de Joaquim (cf. 1:2), concluímos
que a visão aconteceu no ano 592 a.C.
b. O intervalo de tempo entre a primeira data (1:1-2) e esta visão é de um ano e dois
meses. Se Ezequiel tinha 29 anos no início do seu trabalho, ele teria completado
30 anos de idade até a data desta visão
1) Se estivesse ainda em Jerusalém, estaria iniciando seu serviço sacerdotal
2) Nesta visão, ele terá o privilégio de entrar na casa de Deus, mas enfrenta a triste
realidade do pecado do povo que levou à saída do Senhor de sua casa
2. Ezequiel estava na sua própria casa, ainda entre os exilados em Quebar (8:1)
3. Os anciãos de Judá estavam assentados diante dele, provavelmente procurando
orientação espiritual, como costumavam fazer (8:1; cf. 14:1; 20:1; 33:31)
4. Deus pôs a mão sobre Ezequiel, e o profeta viu uma figura celestial que nos lembra a
visão do capítulo 1 (8:1-2). Nesta seqüência, relatada nos capítulos 8 a 11, Ezequiel faz
comparações que mostram que a visão da glória de Deus aqui é basicamente igual à
visão que teve junto ao rio Quebar (8:4)
5. Ele foi levado pelo Espírito “a Jerusalém em visões de Deus” (8:3)
B. Deus permitiu que Ezequiel olhasse para dentro do templo para ver algumas das
abominações sendo cometidas na casa que representava a presença de Deus no meio do
povo escolhido (8:3-16; cf. 5:11)
1. Na entrada do pátio do templo do lado norte, Ezequiel viu a imagem dos ciúmes (8:3-
6)
a. Torna-se evidente que os efeitos das reformas de Josias, um dos melhores reis de
Judá, que morreu menos de 20 anos antes desta visão, não duraram muito (cf. 2
Reis 23:6)
b. Aparentemente, os últimos reis de Judá voltaram à idolatria de Manassés, até o
ponto de erigir uma imagem numa das portas do templo (cf. 2 Reis 21:7,11-12;
Jeremias 7:30; 15:4; 19:3-4; 32:34)
c. A porta do norte seria a entrada normalmente usada pelo rei quando vinha do seu
palácio para o templo. Sabendo da história da idolatria de vários reis, é provável
que o rei fosse um dos principais culpados destas práticas abomináveis
d. Talvez o aspecto desta descrição da idolatria no templo que mais nos surpreenda
nesta descrição da idolatria no templo seja o comentário no versículo 4: “a glóriaO Atalaia de Israel 15
do Deus de Israel estava ali”. Apesar da rebeldia de Israel na rejeição de Deus,
ele ainda não havia abandonado seu povo. Claramente, foi o pecado do povo, e
não a impaciência de Deus, que causou o sofrimento de Israel (8:5-6; cf. Isaías
59:1-2)
2. Ezequiel foi guiado até uma câmara escondida, onde ele encontrou 70 anciãos de
Israel participando de um rito idólatra e adorando animais (8:7-12; cf. Deuteronômio
4:15-18; Romanos 1:23-25)
a. O número 70 pode vir dos 70 anciãos do sistema judiciário estabelecido no tempo
de Moisés (cf. Números 11:16,25), a mesma idéia encontrada séculos depois no
Sinédrio, o corpo governante dos judeus na época de Jesus e os apóstolos. O
número 70 é o produto de 7 x 10, sugerindo um número completo (e até santo)
e mostrando que a nação, em geral, havia se dedicado à idolatria
b. Alguns nomes são mencionados aqui (8:11) e em 11:1. Não temos informações
para melhor identificar estas pessoas. Podem ter sido líderes conhecidos do profeta
e do povo de sua época, assim mostrando aos cativos como a idolatria se
espalhava desde os mais elevados níveis da população
c. Estes anciãos tinham se convencidos que Deus não via seus pecados, e assim
participavam desses atos abomináveis com arrogância e desrespeito pela palavra
dele (8:12)
3. À porta da entrada do norte do templo, Ezequiel viu mulheres adorando o falso deus
Tamuz (8:13-14)
a. Tamuz era um deus de fertilidade
b. Na adoração deste falso deus, as pessoas choravam e participavam de rituais de
fertilidade
4. Por último, Ezequiel viu 25 homens, de costas para o templo, adorando o sol (8:15-16;
cf. Deuteronômio 4:19)
C. Depois de mostrar para Ezequiel todos estes crimes na área do templo, Deus enfatizou a
vingança que ele traria contra o povo rebelde que claramente merecia o castigo (8:17-18)
II. Executores da Vingança Divina Matam os Malfeitores (9:1-11)
A. Uma voz forte chamou sete homens para executar a justiça na cidade (9:1-2)
1. Seis deles trouxeram armas para esmagar e destruir (9:2)
2. O sétimo estava vestido de linho e trouxe um estojo de escrevedor (9:2)
B. Deus, da entrada do templo, falou com estes homens (9:3-7)
1. A glória de Deus se levantou do querubim (parece neste ponto uma referência aos
querubins da arca da aliança – cf. Êxodo 25:18-20) e foi até à entrada do templo, onde
aparentemente parou para orientar os executores (cf. 10:4)
2. Ele instruiu o homem com o estojo a passar pela cidade e colocar um sinal na testa
dos homens que foram angustiados por causa das abominações dos rebeldes em
Jerusalém (9:4; cf. Apocalipse 7:2-4; 9:4; 14:1)
3. Mandou, então, que os outros seis seguissem para matar sem misericórdia todos que
não tinham a marca dos justos (9:5-7). Eles foram obedientes à ordem divina
C. Ezequiel clamou ao Senhor em angústia, preocupado que todo o restante do povo seria
destruído (9:8). Aqui, e num apelo semelhante em 11:13, parece que Ezequiel entendia que
o povo de Deus incluísse apenas as pessoas na presença do Senhor (ou seja, na presença
do templo físico em Jerusalém). Deste ponto de vista, o restante teria que estar em
Jerusalém, e não afastado de Deus na Babilônia. Deus responde a esta idéia mais tarde (cf.
11:14-21)
D. Deus respondeu ao apelo de Ezequiel, dizendo que o pecado excessivo do povo realmente16 Estudo do Livro de Ezequiel
seria castigado sem compaixão (9:9-10)
E. Enfatizando a finalidade desta decisão de executar a punição, o homem com o estojo
voltou e disse que tinha terminado seu trabalho (9:11)
III. A Glória de Deus Deixa o Templo (10:1-22)
A. Como já observamos, Ezequiel faz comentários ligando esta visão às cenas anteriores junto
ao rio Quebar. Nossa ênfase no estudo deste capítulo estará nos atos de Deus, e não nos
detalhes da aparência da glória divina. É importante notar, porém, que:
1. Ezequiel agora identifica os quatro seres viventes como querubins (10:15,20; cf.
Gênesis 3:24; Êxodo 25:18-22; 1 Samuel 4:4; Salmo 18:7-12)
2. Não somente as rodas, mas os próprios querubins, estavam cheios de olhos (10:12;
cf. Apocalipse 4:8)
3. Cada querubim tinha quatro rostos. Quando comparamos a descrição aqui com a do
capítulo 1, percebemos que o rosto de boi é descrito agora como rosto de querubim
(10:14; cf. 1:10; 10:22)
B. O homem vestido de linho foi instruído a tomar brasas acesas do meio dos querubins e
espalhá-las sobre a cidade (10:1-2,6-14). A idéia de fogo ser lançado do céu é uma
representação comum do julgamento de Deus (cf. Gênesis 19:24; Levítico 10:2; Lucas
9:54; Apocalipse 8:5)
C. Quando o Senhor se levantou do querubim, o templo se encheu do resplendor da glória
de Deus (10:3-5)
D. Os querubins se levantaram da entrada do templo, levando a glória de Deus para fora da
casa dele (10:15-22). Deus saiu para o lado oriental (10:19), a mesma direção de onde virá
quando volta para a cidade restaurada (cf. 43:1-5). Esta cena claramente representava o
pior pesadelo possível para Ezequiel ou qualquer outro judeu temente a Deus. O Senhor,
finalmente, ficou tão irado pelo pecado da nação que ele foi embora do seu lugar no meio
do povo. Ezequiel tinha visto os acontecimentos celestiais atrás da calamidade da queda
de Jerusalém. Que dia triste para este sacerdote!
IV. Ezequiel Avisa sobre o Destino de Jerusalém (11:1-25)
A. Nas revelações deste capítulo, o Senhor responde à falsa confiança de alguns dos
habitantes rebeldes de Jerusalém, afirmando a certeza do julgamento iminente. Ao mesmo
tempo, ele procura fortalecer a confiança de Ezequiel e os outros exilados, prometendo a
restauração que viria depois
B. O Espírito levou Ezequiel à porta oriental do templo, onde ele viu mais uma cena para
mostrar a confusão e a maldade dos líderes em Jerusalém (11:1-4)
1. Ele viu 25 homens, entre eles alguns príncipes citados por nome (11:1-2). Nada no
texto aqui liga estes 25 homens com o grupo do mesmo número que adorava o sol
no mesmo lugar (cf. 8:16). Parece que este grupo era mais político, talvez homens
discutindo como agir diante da ameaça babilônica. Mesmo com a dificuldade citada
abaixo na interpretação do versículo 3, é claro que eles estavam agindo contra a
vontade de Deus: “são estes os homens que maquinam vilezas e aconselham
perversamente nesta cidade” (11:2)
2. Há algumas possibilidades na interpretação do provérbio de 11:3, entre elas:
a. Que o comentário sobre a construção de casas se refere às palavras de Jeremias
29:5. Neste caso, eles estariam negando a longa duração do cativeiro, como
profetizada por Jeremias. A idéia da carne na panela poderia significar que o povo
(a carne) não seria queimado ou destruído devido à proteção da panela. Assim o
povo não precisaria construir casas no cativeiro, porque a cidade santa daria aos
habitantes proteção de qualquer ataque de fora, e o cativeiro acabaria logo.O Atalaia de Israel 17
Sabemos que Jeremias ensinou contra pensamentos deste tipo
b. Que o comentário mostra o desespero dos judeus e seus líderes diante da
destruição iminente, mas que eles ainda não voltaram a Deus. Nesta interpretação,
o sentido seria do povo reconhecer seu destino, mas ainda recusar admitir a
necessidade de se arrepender. Assim, não devem construir casas, porque todos já
serão consumidos na panela fervente. De fato, Jeremias tentou convencer o rei
Zedequias (o mesmo que estava reinando quando Ezequiel teve esta visão) que o
único caminho que pouparia o povo seria o arrependimento e a decisão de se
render aos babilônicos (Jeremias 38:17-28). Esta interpretação sugere que o povo
entendeu que não teria poder para resistir aos babilônicos, mas que, mesmo assim,
recusou o conselho de Deus
c. Uma terceira interpretação junta aspectos das primeiras duas, sugerindo que não
deviam construir casas em Jerusalém com a guerra iminente, mas que os
habitantes iam sobreviver como carne numa panela que não é queimada. Esta
abordagem faz sentido no contexto, pois nos versículos seguintes, Deus diz que
retiraria os rebeldes do meio da cidade e que seriam mortos pela espada fora (11:7-
11; cf. 5:2)
d. Independente da interpretação específica do versículo 3, podemos ver claramente
que os 25 homens e os líderes citados estavam aconselhando uma política contra
a palavra de Deus, assim agravando uma situação que já estava péssima
C. O Espírito mandou que Ezequiel profetizasse contra estas atitudes erradas (11:5-13)
1. As atitudes dos judeus e dos seus líderes multiplicavam o sofrimento e as mortes
(11:5-6)
2. Deus prometeu novamente que traria julgamento contra os desobedientes
a. A cidade não seria a panela de proteção, pois os rebeldes seriam entregues à
espada até os confins de Israel, fora da cidade “protetora” (11:7-12)
b. Deus demonstrou a sua intenção quando matou um dos príncipes de Israel,
Pelatias, filho de Benaías (11:13; cf. 11:1)
1) Não sabemos se Deus, de fato, matou Pelatias, ou se a morte dele foi uma
parte da visão de Ezequiel
2) Ezequiel novamente clamou a Deus, perguntando se ia destruir o resto de Israel
(cf. 9:8; Amós 7:1-5). Parece que Ezequiel, como o povo judeu em geral,
entendia que o verdadeiro povo teria que ficar na terra. Se levasse alguns ao
cativeiro e matasse os que sobraram, acabaria totalmente com a nação? Esta
dúvida será respondida nos próximos versículos
D. Deus introduz e depois responde a um provérbio usado pelos habitantes de Jerusalém que
desprezava Ezequiel e os demais exilados: “Apartai-vos para longe do SENH O R; esta
terra se nos deu em possessão” (11:14-21)
1. Primeiro, Deus assegura Ezequiel que ele não abandonaria o povo durante o período
do cativeiro, que ele descreve como “um pouco de tempo” (11:16)
2. Ele segue esta promessa com outra, a da restauração do povo fiel depois do cativeiro
– a restauração de um restante santo (11:17-20). Como é comum nas profecias sobre
a volta do cativeiro, encontramos aqui uma mistura de idéias sobre a volta literal à terra
prometida com vislumbres do reino messiânico e espiritual do Novo Testamento
3. Os perversos seriam castigado pelos seus pecados (11:21)
4. É notável que Deus enfatiza aqui a responsabilidade individual, e não nacional. É um
tema importante em Ezequiel
E. A última cena desta visão de Ezequiel foi a saída da glória de Deus da cidade de Jerusalém
(11:22-23). Deus foi embora!
F. O Espírito devolveu o profeta ao seu lugar entre os cativos na Babilônia, e este contou tudo18 Estudo do Livro de Ezequiel
para os outros exilados (11:24-25). É provável que esta visão tenha respondido às
perguntas dos anciãos que procuravam a orientação de Ezequiel (cf. 8:1)
Conclusão: Ezequiel, como os outros exilados, tinha motivo para se preocupar com o futuro de
parentes e amigos em Jerusalém. Por causa do significado especial daquela cidade, tinham até
mais motivo para se preocuparem com o destino da cidade e do templo. A nação poderia
sobreviver se a cidade caísse? A queda de Jerusalém seria prova de Deus ter abandonado seu povo
e seus planos para a nação e até para a redenção no Messias? Estas preocupações são respondidas
nesta série fantástica de visões nas quais Deus abre a cortina e deixa Ezequiel ver o que está prestes
a acontecer com sua amada nação. Em cada cena, fica evidente que Deus é justo e soberano, que
ele controla os eventos e julgará em justiça os perversos e os fiéis.

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Deus Abençôe